7 de julho de 2017

A CAIR

[Sobretudo no esquecimento.]

É uma vertigem igual à que senti quando subi aos píncaros da Catedral de Colónia (Kölner Dom). Uma vertigem negra, gótica, cava. A certa altura não consegui meter um pé a seguir ao outro, e sentei-me no chão, indiferente aos que davam passos decididos em direção ao céu.
A vertigem é mais profunda quanto mais alta é a igreja.
É um belo pensamento se o adaptarmos a Pedrogão.

Ainda não falei sobre Pedrogão.
Ainda não falei sobre culpas e desvarios, sobre aproveitamentos e desperdícios, sobre a temática da caridade barata - um tema que me é tão caro - ou sobre como um país consegue ser ao mesmo tempo tão pobre (em liderança) e tão rico (em solidariedade).
Li na página do Pedro Boucherie Mendes que, e passo a citar, 'a terrível e inominável mortandade que aconteceu por causa do fogo comoveu o país e fez com que muita gente arregaçasse as mangas e… aproveitasse para dar uma limpeza nos seus roupeiros.'

É uma vertigem voraz, esta em torno do desperdício de doações, sobretudo de roupa usada e calçado sem solas, que as pessoas teimam muito em enviar em catadupa para as catástrofes, para os terramotos, para as secas, para todo o lado em que lhe pareça que as pessoas estão nuas, ou descalças.
Na TSF, a jornalista Bárbara Baldaia diz que solidariedade não é limpar armários, e fala de um vestido de noiva dentro de uma caixa que chegou a Pedrogão. 
Uma metáfora para a alguém que possivelmente ardeu com o casamento, ou tem uma visão muito romântica dos acontecimentos.

Não há ninguém quem nos ensine a solidariedade, como não há ninguém que nos ensine sobre incêndios, ou sobre o mar. Somos constantemente colocados à prova, nós, o povo português, para agirmos em situações para as quais não estamos minimamente preparados. 
Lá vai o marido obeso, depois de comer uma valente feijoada, salvar a mulher que não sabe nadar mas voltou as costas à onda. E lá morrerem os dois, muito agarradinhos, um ao pescoço do outro, como morrem os velhinhos, muito agarradinhos, queimados pelas chamas.

Não quero esmiuçar a questão da culpa porque de resto somos todos culpados.
Os enormes eucaliptos que ladearam desde sempre a estrada que ia dar ao monte da minha bisavó, lá no Serro da Bruta, na remota Corte-Brique, nunca arderam. Lá passaram um sem números de carroças puxadas por bestas, burras e mulas, amigos que lá iam ajudar na matança do porco, ou na apanha da cortiça, os filhos, as noras e depois os netos, os amigos dos netos, as mulheres dos netos, um sem número de cabeças, também de gado, que por ali pastavam e viviam sem sobressaltos de maior, a não ser uma outra trovoada, que vinha quase sempre do lado espanhol.
Ardeu-lhe muitas vezes o coração, porque teve ferventes paixões, mas nunca lhe arderam as árvores, a casa, ou os animais.

Por outro lado ninguém esquece a caridade dos outros, quero dizer, os mortos esquecem, mas os que ficam vivos não podem senão viver com essa amalgama na cabeça, porque a caridade é uma amálgama viva de emoções misturada com os trapos velhos dos caridosos.

«Quando a minha família e mais umas centenas de milhar vieram das ex colónias sem nada, repito, sem nada, foram muitas as coisas que nos deram. Muitas dessas coisas não davam para vestir. Mas tudo gentilmente agradecemos e se não dava para usar dava para limpar o pó ou para capacho de limpar os pés, porque nada tínhamos. Foi desse lixo, que a minha mãe fez o meu vestido de baptismo. A necessidade aguça o engenho e a arte, para quem não sabe.» (Américo Varatojo)

Não posso concordar mais com o Pedro Boucherie Mendes quando ele diz que a “Caridade” tem de se profissionalizar de uma vez por todas. Não é possível ajudar ninguém, quando num só dia se recolhe mais de um milhão de euros para uma causa sobre a qual ainda ninguém sabe a causa. Vai ser um deboche esse dinheiro nas mãos erradas, como é um deboche a criatura que limpa armários para fingir a compaixão, enviando para Pedrógão os seus velhinhos trajes de Carnaval.

Pedrogão será mais um ponto negro no meio do nada, um asilo de lixo, um exemplo cabal daquilo que actualmente se chama de 'second disaster donations'.
 A cair.
Sobretudo no esquecimento.
Dos que nada fazem para nos ensinar.
A caridade.

3 comentários:

  1. Está muito bonito o texto... mas "caridade" é mesmo isso, uma vertigem que se deveria primeiro evitar para não ter que se praticar.Existe a meu ver um certo sentimento de "tolerância" detrás da ideia de caridade e isso não é de nenhum modo positivo.
    Solidariedade é bem mais simpático mas é também difícil de explicar.
    Mas valeu a reflexão e as tuas palavras que até admiro, sem dúvida que este não é o melhor canal para debater o tipo de ideias em causa.

    Saúde!
    Francico

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada meu caro Francisco. Se quiser debater o assunto pode perfeitamente usar este canal. Sou Assistente Social, e o tema da profissão é fundamentalmente este: saber discernir caridade de solidariedade e profissionalizar a primeira tornando -a útil.
      Obrigada pelas palavras.
      Sou grata.

      Eliminar
  2. Nossa, que experiências de m** tens tido em torno da caridade!
    Pode até ser que uns poucos se aproveitem para «limpar os armários» mas creio que também é verdade - e talvez em maior escala - que muitos dão o melhor que têm e ficam com as peças gastas e com borboto para si. Conheço quem doe roupa mas goste de o fazer com peças de jeito, porque existe uma certa noção ou vaidade em DAR algo e esse algo tem de estar em condições apresentáveis e DESEJÁVEIS. O que tiver uma pequena marca - vai para o contentor de roupa - onde, se presume, o têxtil será reciclado. Quando na verdade, na maioria das vezes, se lá aparece algo com potencial de venda, acaba realmente vendido em lojas de conveniência, para virar dinheiro. E esse dinheiro ajuda os pobres sobre os quais incide o pensamento daquele que doou o seu artigo? Talvez parcialmente. Primeiro à que pagar a dívida da empresa dos contentores, da empresa de recolha, da empregada de limpeza, a conta da eletricidade...

    No caso de caridades diárias, sem urgência e sem abalo, até pode ser que muitos «limpem armários». E ofereçam fatos de carnaval e vestidos de noiva. Mas nesta de Pedrogão acho que não foi esse o resultado do Concerto Solidário. Nem o resultado de muitos que se deslocaram ao local e foram às aldeias para distribuir água. REcuso-me peremptoriamente a ter uma ideia tão negra da solidariedade humana. Se não mais, Pedrogão restaurou-me a fé na humanidade e sua capacidade para se comover e procurar ajudar.

    Duvido que já tenha caído no esquecimento e talvez seja uma das únicas tragédias que aconteceram e até das que estão para acontecer, que «viverá» mais tempo, sem cair no tal «esquecimento». Anos se passarão, e muitos se recordarão.

    E a solidariedade - não a caridade - talvez aí esteja a diferença que quiseste discernir - ainda está a ser executada naqueles que vão visitar a região para usufruir das atracções turísticas - um apelo local pelo que entendi - e gastar o seu dinheiro naquela região afetada pelos fogos.

    ResponderEliminar