5 de julho de 2016

Daquilo que me dá nos nervos

Então, estás a gostar? Estás a reler? Já li esse há anos sem fim, chiii, já nem me lembro quantos anos tinha! Ahh esse é muito bom, mas li-o na adolescência... Ainda nos clássicos? Esse Dostoievski é um bocadinho maçudo, li-o com 6 anos e não gostei muito...

Descobri um novo tipo de pessoas. Os pós-leitores.
Os pós-leitores são uma espécie que saiu muito adiantada em relação aos outros leitores; são aqueles que aos 6 anos de idade já tinham devorado meia lista dos melhores 100 livros para ler na vida, incluindo aquela porcaria indecifrável do James Joyce. São leitores com uma voragem tal, que não há um único livro com mais de 100 anos que não tenham lido seguramente 3 vezes.
Não me interpretem mal. Não me sinto inferiorizada por ter quase 40 anos e estar a ler a Madame Bovary pela primeira vez, logo depois de ter terminado o Grande Gatsby. Sinto-me aliás muito bem. Há muito que venho assumindo que tenho grandes falhas na cultura literária, porque sou uma leitora bastante tardia dos bons (e maus) livros, vulgo, grandes clássicos, porque para se ler bons livros numa certa altura da vida, é preciso ter quem lhos indique, e eu não tive.
A minha filha de 9 anos já leu mais livros do que eu com 20. Porque a obrigo, porque lhos compro, porque lhe faço esperas à porta do quarto e pergunto: então filhinha, quantas páginas leste hoje? e é um jogo, uma tarefa, um objetivo, que tenho e faço por vencer, de passar hábitos bons e arreigados de leitura à ML, porque sei a falta que nos faz a cultura literária, o saber ler bem, falar bem, pensar bem.
Não me aborrecem tanto as pessoas aborrecidas como me aborrecem as pessoas que me olham com uma certa sobranceria, com uma espécie de altivez que as coloca num patamar elevadíssimo, só porque leram o Guerra e Paz nos primeiros anos de vida.
É como se fossemos os coitadinhos da leitura, os que só agora, em velhos, conseguem perceber, coitadinhos, que há livros incontornáveis, e que coitadinhos, têm de andar a estudar as cadeiras atrasadas, como um fardo, coitadinhos, quando já podiam ser seres superiores, de canudo literário nas mãos, detentores de um conhecimento especial que os coloca acima de qualquer outro ser humano.

Há uma frase muito linda, muito eu, do Almada Negreiros (e que está na estação de Metro do Saldanha), que diz assim:

“Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam! Não duro nem para metade da livraria! Deve haver certamente outras maneiras de uma pessoa se salvar, senão… estou perdido."

Julgo que diz tudo - sobre todos.

17 comentários:

  1. Eu que de vez em quando lá me aventuro numas incursões pelas Ferrantes desta vida, mas logo logo me vejo de volta à prateleiras dos velhos, senti-me muito reconfortado ao ler isto. Muito mais descansado. Obrigado, Uva Passa.

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    1. Eu nasci para isto, para reconfortar as pessoas. ;)

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  2. nada a fazer contra os pseudo-intelectuais...
    Só ganhei o interesse lá para os 20 e agora leio 2/3, 1 depende dos livros, depende dos meses, não li e não está na minha wishlist o que está a ler, mas julgo que as pessoas devem ler o que gostam, leio clássicos, mas fujo muito para as biografias de grandes personalidades clássicas, o que interessa é ler e não chegar ao fim e ser uma grande porcaria, como já me aconteceu com George Duby (3 livros muito maus, um bom e um assim-assim) e outros que me esqueço agora.
    Ler o que se gosta sim, mas sem pressões intelectuais, ou ditames culturais...

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    1. Ora nem mais! Eu agora ando a ler a Constituicao Portuguesa, as várias versões da mesma, as várias interpretações segundo vários autores, e estou maravilhada. Parto depois para a mitologia grega que acho incontornável, e é isto.

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    2. Isso é interessante.
      Pelo menos assim achei quando as estudei na escola. Mas eu, interessando-me ou sendo apresentada a certas coisas, desperta-me logo interesse. Mesmo as que dizem "maçudas". Andavam todos a achar aquilo maçudo - a nossa área não era de leis - mas acho que se pode encontrar por toda a parte algo de interesse e que nos dê gosto descobrir, até em áreas que não nos atraem de todo.

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  3. Ocorreu-me escrever que tenho uma amiga ainda muito jovem que há dias contava como estava impressionada com uma outra pessoa que conhecemos em comum porque a achava o exemplo da competência e das capacidades aproveitadas ao máximo. E eu, que conheço essa tal pessoa que temos em comum vai para uns quinze anos, disse que a achava até uma pessoa fraquita, com uma cultura geral muito aquém para a imagem que passa e que, se calhar, nem se lembrava do último livro que leu. Resposta da minha amiga : olha que não, olha que ela lê, já me disse. Lê autores russos.

    Estive uns bons minutos a rir e lá expliquei à minha amiga que ela nem o Metro lê e que arranjou esta mentira de que lê literatura russa porque mata à partida a conversa já que a probabilidade de a maioria das pessoas ler aquilo é ínfima e assim é quase sempre fim de conversa com esse tal tom de soberba porque enfim, lê autores russos. Só falta dizer que lê as edições originais. Mais cocós engomados de que já falámos aqui.

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    1. Já li russos, já li americanos, portugueses e ingleses, espanhóis e alemães, mas nunca disse a ninguém que já li um livro sem nunca o ter lido. Isso é ser só parvo. Há pessoas muito esquisitas.

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  4. Gostei muito deste post (como de quase todos)! Poderia ser sobre mim... ;)

    Vamos sempre a tempo, Uva!

    Carla

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    1. Vamos pois, é com a cabeça mais madura até entendemos melhor. Abraço!!

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    1. Desde muito pequena que lhe explico a importância dos livros. É uma regra como qq outra, ter a tarefa de ler dois livros por mês. Os hábitos de leitura são isso mesmo, hábitos, e para criares um hábito numa criança tens de lhe fazer primeiro a regra, caso contrário borrifa naquilo e fica agarrada ao tablet ou à televisão. Por isso a resposta é sim, resulta.

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  6. Post pertinente e muito bem conseguido.
    Bravo!

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    1. ;) Olá Marcelo.
      Seja bem vindo à minha cesta.
      O meu nome é Uva Passa mas não sou assim tão velha!

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  7. Ler com 6 e ler com 40: não é a mesma coisa.
    Ler não é um concurso para ver quem chega lá primeiro :) :)

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  8. Gostei muito do post, mas achei super interessante a questão de criar o hábito da leitura, através da regra e não apenas do exemplo. Um óptimo ponto! (Não posso deixar de concordar com o post, agora nada leio, desde que tive o meu filho secou-se a vontade, mas quando lia, e bastante, tanto me fazia o ser clássico ou estar na moda, desde que me agradasse!)

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  9. Uva
    Eu sou precisamente o oposto.
    Em miúda devorava livros. Talvez por ser extremamente tímida o meu refugio era a leitura.
    Na adolescência li tudo o que os meus pais tinham em casa. Lembro que li Eça (a colecção que os meus pais tinham) em 2 semanas de férias. E adorei.
    Lia compulsivamente. E não era para mostrar nada a ninguém, simplesmente a ler era como me sentia melhor.
    E agora, 20 anos depois, pouco ou nada leio. Tenho muita leitura de trabalho mas devorar histórias, romances, mistérios... há anos que não o faço.
    beijinhos
    MB

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