16 de fevereiro de 2018

CAPE TOWN / CIDADE DO CABO [dos trabalhos]

Nem imaginam o que consegui hoje!!
Consegui comprar água. 6 litros ao certo.
Porque raio isso me faz feliz?

Aqui em Cape Town, estamos a passar por uma dura crise. Aquilo a que chamamos o "Day Zero" aproxima-se: no dia 16 de Abril, deixará de haver água. A primeira grande cidade no mundo.. que está a ficar sem água.

Desde o inicio deste mês apenas me é permitido gastar 50 litros de água por dia (equivalente a puxar o autoclismo 5 vezes). O meu banho não pode ultrapassar os 90 segundos. Esses 90 segundos contam a partir do momento em que abro a torneira (sim.. a água vem sempre fria ao inicio!) Carrego no autoclismo uma vez por dia. Ponho o balde debaixo do duche quando tomo banho para recolher água que pode ser usada para outros fins. Passo um guardanapo em cada prato depois de comer para retirar a maior parte da gordura para depois não gastar tanta água para os lavar. O banho do bebé da minha vizinha é feito num balde, não há lugar para brinquedos flutuarem à superfície. Gostava de ter mais umas plantas por casa, mas o meu namorado relembra-me "Aurélie, vais ter que gastar mais água para as manteres." Tento reutilizar a roupa que já usei mais vezes antes de a pôr para lavar.
Estes são alguns inconvenientes, que não considero ainda como uma grande problemática para seguir com a minha vida no dia a dia. É chato, é desconfortável, mas faz-se. O pior ainda está por chegar, faltam dois meses. Não haverá água a sair do duche, nao haverá água a sair da torneira para o copo e milhares de pessoas nesta cidade já não vão ter autoclismo para puxar.
Nos últimos meses, os cidadãos foram ainda mais alertados para pouparem água através de cartazes e comunicação pelas ruas, na TV, nas revistas, nos aeroportos, nos edifícios, nos elevadores, etc. E não é que 60% dos habitantes.. não aderiram e não se quiseram esforçar. Continuaram a gastar água na mesma. E de repente, quando estamos em cima do acontecimento, tudo entra em pânico. "Mas vamos mesmo ficar sem água? Então... e agora?!"
Estou neste momento a repensar, mais do que nunca, na inteligência do Homem e no seu egoísmo e na sua dificuldade em fazer pequenos sacrifícios no presente para poder haver um bom futuro (ou simplesmente.. um futuro!).
Os lineares dos supermercados estão vazios sem garrafas de água há mais de um mês. Começou a caça. E hoje, por acaso, encontrei 4 garrafas, deixadas para trás. E não é que sinto que já ganhei um pedacinho do meu dia, com uma coisa tão simples.
É difícil. 

É mesmo difícil eu idealizar que a água que vejo a sair de qualquer torneira todos os dias desde que nasci, em qualquer momento que quisesse, na quantidade que eu quisesse possa um dia acabar. Termos água a correr da torneira é um luxo e é errado acharmos que é algo de garantido. É uma lição que já me custou mais a aprender (e que continuo a aprender). Há que repensar no nosso consumo 🙂 Water is life.

E em Abril, quando deixar de haver água aqui? 

PRETO NO BRANCO

Eu sou negro, ele é negro, tu és um negro:

Lista negra
Dia negro
Magia negra
Câmbio negro
Vala negra
Mercado negro
Peste negra
Buraco negro
Ovelha negra
Humor negro
Nuvem negra
Passado negro
Futuro negro
Fome negra

Eu sou preto, ele é preto, tu és um preto:

Feijão preto
Carro preto
Café preto
Nota preta

Negro = necro = nekro = necro= sem energia de vida = corpo morto
Preto = Kem = essência do que é = da vida = origem = divindade

Aí têm.
A prova sobre a força das palavras - e de como facilmente podemos enganar-nos [tanto] na escolha das mesmas.

13 de fevereiro de 2018

QUERO UM CÃO!

«Esta é uma época em que um filho é, acima de tudo, um objeto de consumo emocional. Os objectos de consumo servem necessidades, desejos ou impulsos do consumidor. Assim também os filhos. [...] Para desalento dos comerciantes, o mercado de bens de consumo ainda não é capaz de fornecer substitutos à altura.»

A frase, que excertei do livro 'Amor Líquido' de Zygmunt Bauman, era qualquer coisa de extraordinário, se extraordinárias não fossem todas as frases de Zygmunt Bauman.
Reparem bem no que ele argumenta: os filhos são bens de consumo que servem necessidades. É duríssimo.
Parto daqui para uma ideia em construção, sem certezas absolutas mas bastante desconfiada, de que certas pessoas - e não são tão poucas quanto isso - tendo necessidades diferentes e meios económicos diversos para satisfazer essas necessidades, podem estar a assumir o cabeçalato de uma corrente que pretende dar mais ânimo aos comerciantes e ao mercado, na descoberta de um substituto para a inquestionável sede de consumo emocional que todos temos, quase sem exceção, enquanto Humanidade.

Não é pouco comum conhecermos rapazes e raparigas completamente desligados da 'necessidade de ter filhos' ou ligados à ideia de que ter filhos é um investimento grande demais para o nível de risco que acarreta.
É uma resolução que a longo prazo elimina qualquer possibilidade de crescimento do mercado, visto que o mercado só se renova com a renovação da população, porquanto criamos serviços para pessoas de todas as idades e não só para adultos ou séniors.
O mercado tende, claro, a responder a estas novas formas de vida (ou escolhas de vida) controlando o consumidor através de auxiliares emocionais, sobretudo para os indivíduos que escolheram não procriar ou que têm resistência em fazê-lo.
O que quero dizer é que o mercado está a fazer uma grande pressão na sociedade e encontra-se neste momento a regular o impulso do consumidor através de diversas leis e regras, que nos impõem os animais como pessoas.
Duríssimo.

Vejamos: está completamente fora de questão [mas há exceções, que isto não é ciência é humanidades] um casal sem filhos não ter um cão, ou outro animal de estimação, para suprir a necessidade emocional que carrega (também em diferentes níveis) nos seus genes.
Deriva também desta premissa o facto de, como espécie, não sermos capazes de usar para sempre os recursos animais para nos alimentarmos, e vai daí, o Senhor Mercado regula para que haja consciência ambiental que promova a alimentação vegetarina ou mesmo vegan.
O Senhor Mercado sabe que nem todas as pessoas poderão ter filhos num futuro que está muito próximo e regula no sentido de substituir essa enorme fonte de desespero social.

Acredito muito que em breve - apesar de haver uma larga franja da população que se insurgirá contra isso, sobredeterminada por uma visão que é já arcaica [julgo eu] de que os animais de estimação devem ocupar um espaço totalmente diferenciado da restante população - o facto de se entrar num restaurante e dar de caras com uma matilha de cães que por ali deambulam à procura dos restos dos vários comensais presentes, será qualquer coisa de muitíssimo comum, passando depois para o muitíssimo normal, e depois para o completamente indiferente.

Assim sendo, não vale a pena discutir mais nada sobre isto, pois que não há nenhuma forma nem vontade, por parte do Senhor Mercado, em parar aquilo que ele encontrou como sendo a única maneira de suprir as necessidades emocionais das pessoas, ao mesmo tempo que determina pela regulação quais são essas necessidades.

Nem contra nem a favor, sou antes uma mera espectadora da evolução da espécie [também animal]. 

12 de fevereiro de 2018

P[ÓDIOS]

Sou uma Uva Passa, mas não sou assim tão velha, e por não ser assim tão velha é que tenho invulgar lembrança de coisas que grande parte das pessoas já se esqueceram.
Tendemos todos para a bulimia nervosa aplicada à informação cibernética, porquanto nos saciamos das polémicas virtuais tão vorazmente, que só vomitando tudo cá para fora é que conseguimos assimilar mais qualquer coisa de novo.
Na maior parte dos casos não há efetivamente nada de novo. São sempre as mesmas coisas, o longo bocejo da repetição, a mesquinhice, as inseguranças de quem se vê no pódio demasiadas vezes - por coisa nenhuma, os arrufos sacrossantos do clickbait levados ao exponente máximo da humilhação pessoal, os recadinhos de bastidores, o veneno e a displicência pela inteligência dos outros.
É triste, sobretudo porque os verdadeiros pódios da vida são concretizações pessoais e individuais e são, atrevo-me a dizer, conseguimentos íntimos que se bastam por si só e não carecem nem de aplausos e nem de dentadas em medalhas.
Tenho grande respeito por quem sobe aos pódios a pulso, lembrando sempre a velhinha expressão do self made Human, pessoas que são ao mesmo tempo brilhantes e humildes, que partilham os méritos e guardam para si as falhas [também dos outros].
Por ser uma Uva Passa, mas não ser assim tão velha, é que me lembro que em 1995 - quando renhidamente se votavam os Óscares de Hollywood - o filme «Forest Gump» e o ator Tom Hanks arrecadaram, respetivamente, melhor filme e melhor ator.
Foi realmente invejável a quantidade de fãs que o filme e o ator vieram a ter, impulsionados pela grande industria carneirófila que papa tudo o que é 'hit' do momento.
Nessa mesma competição estava o filme «Condenados de Shawshank», com Morgan Freeman no principal papel, que [é incrédulo!] não ganhou absolutamente nada.
A verdade é que a história é cruel para quem ocupa falsos pódios.
«Condenados de Shawshank» é atualmente um dos títulos mais vendidos no mercado de DVD e Blu-ray, ultrapassando em muitos milhares de milhões de cópias vendidas, o vencedor insofismável da competição de '95.


Eu confio, e espero, que todas as pessoas que assistem em primeira, segunda ou última fila os "conseguimentos" dos outros, saibam ver, e avaliar, com grande rigor, se quem ocupa atualmente certos pódios é verdadeiramente merecedor dos mesmos.
Não só por uma questão de justiça! mas para que depois não lhe venha a história dizer, na sua irremediável soberba, que passaram grande parte das suas vidas a ver o filme errado.

A Abraham Lincon é atribuída a frase:
«Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo.»

6 de fevereiro de 2018

[DES]INSPIRAÇÃO

Tenho visto milhares de fotografias. Algumas delas estão aqui, neste blog, sobretudo numa fase em que o negrume da desinspiração ainda não tinha tomado conta de mim.
Tomar conta de mim é até ultrajante dizer-se, porquanto 'tomar conta' é o total oposto daquilo que me aconteceu.
Sobre isto [da desinspiração] posso dizer qualquer coisa como: uma pessoa, mesmo uma super-pessoa, não pode/consegue dissociar-se [pelo menos durante muito tempo] do seu 'eu' bio-psico-labor-social. Quando alguma destas coisas falha, tudo periga.
No meu caso, o labor - que isolo numa categoria diferente do social, por ser tão importante para mim - foi o culpado, foi por culpa dele, e também por ele, que perdi o interesse.
Fui desinspirada por falta de amor ao trabalho.
Acontece muito no amor, esta sensação de desinteresse. A pessoa ama muito mas encontra-se desinteressada de amar, a pessoa ama muito mas não se encontra inspirada para amar.
Não é desamor, é desinspiração.
Vejo muito a arte, e também a escrita e a leitura, como um amor e uma inspiração. Nunca deixei de amar os livros, mas não me sinto inspirada para os ler. Compro-os e tenho-os aos montes por toda a casa, mas tê-los é uma coisa e lê-los é outra completamente diferente.
Acredito muito que a mesma coisa que se apaga nos artistas, a desinspiração, também se apaga nas pessoas que gostam muito de arte.

Andei muito apagada, mas tenho vindo a reacender, ainda que intermitentemente, a vontade de trazer mais humanidade para a minha vida.
Nessa senda de trazer a arte para todos, que parece ser a minha, para sempre, tenho encontrado novamente bons livros, bons blogs, e bons artistas.
Sem querer - e porque me desvinculei de uma série de fontes onde dava de beber à minha sede - tive a sorte de encontrar uma fotografia que me chamou a atenção.

Parto destas a preto e branco, de grande inspiração, para aquilo que espero possa ser ser uma vida cheia de cores.

ARTUR PASTOR [1922-1999]
Um artista.









5 de fevereiro de 2018

TECNOLOGIA AVANÇADA

Ando desde a instalação do sistema 1.0 da criança, a fazer-lhe instalações.
Sou muito boa a instalar matérias no disco rígido, tanto é que a criança ainda não acusou nenhum erro fatal no sistema operativo e tem, parece-me, aprendido qualquer coisita neste infinito processo que é a evolução tecnológica.
Quando a criança chegou à fase da instalação do sistema 5.0, avisaram-me que havia ali um programita que não estava a correr como devia no sistema e estava a dar um erro desconhecido.
[Talvez um vírus?]
Eu, que não gosto nada de erros desconhecidos e, na iminência de um ataque de nervos bastante conhecido - por não conseguir resolver a intempestiva situação através dos meus ecléticos conhecimentos tecnológicos - resolvi-me por uma actualização do software, coisa que me custa atualmente uma bela centena de euros por mês (pago em suaves prestações para não ser tão duro aqui para a main board), fiz o que faço normalmente quando a coisa dá erros, desliguei e voltei a ligar e, fiquei na expetativa que o erro ficasse quieto lá no mundo dos erros desconhecidos e não me voltasse dar cabo do servidor.
Tem corrido tudo 'muito' bem desde que fiz esta actualização de software, mas quer dizer, ainda há erros, que os há, mas são já quase todos conhecidos, pelo que os técnicos informáticos que contratei para virem cá correr um anti-vírus no sistema operativo (afinal era um vírus que atacava a parte numérica do disco rígido), têm dado conta da situação, para grande alívio meu e de todo o departamento informático.
[A parte numérica é um vírus.]
Apesar desta tecnologia avançada, e deste grande investimento informático, a verdade é que atualmente - e já com o sistema 6.0 a trabalhar com 32 gigas de RAM  - continuo nesta senda absolutamente bizarra de ser eu, quase que aposto, a transferir a maior parte dos outros dados para o sistema operativo, quando a verdade verdadinha é que o disco rígido em questão passa mais de 8 horas numa loja de reparações e actualizações, com técnicos muito mais especializados que eu em transferência de dados e anti-vírus.
Eu não sei - e tenho verdadeiras dúvidas - se aquando da instalação do sistema 7.0, e já não falta tudo, eu não perderei todas as minhas capacidades tecnológicas para a inserção de dados neste sistema operativo - pelo menos dos programas que eu ainda domino -, e depois ainda tenho de contratar mais técnicos e adquirir mais hardware - quem sabe se não me mudo definitivamente para Silicon Valley - para não rebentar de vez com o sistema.



Resumindo:
Estou em azul.
Passei os dois últimos fins-de-semana a inserir dados no disco rígido da minha criança, depois de ter estado duas semanas a inserir dados no disco rígido (muito duro) do meu patrão.
Quando é que as crianças, isto é, quando é que os sistemas operativos infantis conseguirão funcionar de forma independente, para que o servidor familiar possa fazer outro tipo de ligações, nomeadamente ligações à placa de som, à placa gráfica e à placa de internet, pelo menos no âmbito das redes sociais, aqui à mother board?
Fica a questão.
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(Estamos a quantos meses do verão?)

2 de fevereiro de 2018

DA EVANGELIZAÇÃO [em blogs]

Disseram-me que as pessoas que lêem blogs precisam muito de conselhos em geral.
Inseguras e sensíveis, as pessoas que lêem blogs são afinal pessoas que não conseguem dar um passo na vida sem um conselho superlativo de um blogger qualquer.
Estas necessidades mexem muito comigo.
[Risos]

Cuidei sempre muito das necessidades das pessoas sensíveis, e cheguei a especializar-me nisso.
Passei muitas noites sem dormir, teimei e sismei numa forma qualquer de ajudar a suprir estas necessidades absolutas, e cheguei a uma simples conclusão: as pessoas precisam muito de ser evangelizadas, ainda que renunciem à religião, ainda que sejam de uma turma completamente ateia.
As pessoas precisam dos blogs como do pão para a boca, que é o mesmo que dizer, como da hóstia para a boca.
[Risos]
  
Por isso decidi -  também eu - tornar-me evangelizadora de leitores de blogs e passar para uma esfera metafísica muito ao nível de jogadores de futebol galácticos, que vendem detergentes da loiça para combater a caspa.
Este é o meu objectivo principal. Evangelizar. 
Porque todos sabemos que o melhor negócio é o da fé.
[Risos]

E porque tenho fé, vou deixar aqui às sextas feiras, véspera dos dois dias menos interessantes [em blogs] da semana - porque os blogs também têm de descansar -, os meus melhores sermões comerciais, para que as pessoas não se vejam totalmente perdidas durante dois dias seguidos, sem saber o que fazer das vidas.
[Risos] 

Posto isto, a minha evangelização de hoje é: comprem um pedacinho de tempo para usarem no vosso fim de semana.
Mas não comprem um pedacinho de tempo qualquer, comprem um pedacinho de «tempo de qualidade».
Eu sei que é muito difícil encontrar nos blogs quem venda «tempo de qualidade». O tempo está caro, e na maioria das vezes, quando o encontramos, não sabemos o que fazer com ele, e depois é o que se vê, os leitores que não se dedicam a comprar «tempo de qualidade» acabam por comprar uma «falta de tempo» qualquer, para gastar em coisas de merda.
[Risos]

Salmo I para a compra de «tempo de qualidade»:

Comprem um bom chá.
Um bom chá não vem em saquetas. Chá em saquetas é para aquelas pessoas que só compram «falta de tempo» e nós já sabemos - oh se sabemos - o que compramos quando não temos tempo.
Há blogs em saquetas.
[Risos]

Comprem 150g de Rooibos. Comprem um pedacinho de chá que vem com um pedacinho vida. Quando bebemos um Rooibos não bebemos «falta de tempo». Quando bebemos um Rooibos bebemos o único alimento fornecedor de aspalatina e um dos dois únicos alimentos fornecedores de notofagina. Percam tempo para saber que coisas são estas e ganhem tempo de qualidade.
[O Rooibos faz-me rir]



Salmo II para a compra de «tempo de qualidade»:

Comprem um livro mesmo bom.
Os livros bons não se vendem nas livrarias e nem se anunciam em blogs cuja finalidade é vender livros. Os  livros bons só são muito bons porque são escritos por pessoas com tempo e que bebem Rooibos.
Os livros bons não nos fazem perder tempo de qualidade, fazem-nos pensar com qualidade.



Disseram-me que as pessoas que lêem blogs precisam muito de conselhos em geral.
Se os bons conselhos fossem bons não se vendiam.
Os bons conselhos são melhores que o negócio da fé.
Os bons blogs são infusões, não são chá.
[Risos]

1 de fevereiro de 2018

DA MUDANÇA

Até que ponto poderá o curso da história mudar a natureza da condição humana?

Ouvi esta pergunta vezes sem conta a teóricos e futuristas, a filósofos e escritores, a cientistas e historiadores e, em todos eles, radicou a certeza, quase absoluta, de que não, que não é all about changes, que esta coisa de sermos humanos, a condição humana ou o que nos torna humanos, é afinal passarmos pela história, repetida vezes sem fim [Nietzsche], e no entanto, permanecermos iguais.
As mudanças que se operam no 'curso da história', que não é senão a mudança em si, poderão ou não mudar, alterar ou tornar diferente a condição humana, isto é, aquilo que nos faz humanos?
As pessoas operam mudanças mas as pessoas não mudam.
Esta é a convicção da grande maioria.
Esta era a minha convicção.

Encontrei, algures no meu caminho, pessoas de grande coragem. Pessoas de coragem porque seguindo um curso de história pessoal de grandes e duras batalhas, ficaram fiéis à natureza humana.
Nunca mudaram.
Não posso dizer que foi com prazer que acompanhei esta gente, tornada amarga. A natureza humana é forjada também na convicção de que as pessoas não mudam e, quando alguém entende ser leal à sua natureza, sem que intente operar mudanças no caminho, então essa pessoa não está a ser humana, porque em todo e qualquer caso, em toda e qualquer espécie, em toda e qualquer época, foi a mudança, a nossa mudança enquanto humanos, que nos fez chegar onde efectivamente chegámos.

Acontece que é muito difícil acompanhar estáticos [também nas convicções]. Os estáticos, que entendem que as mesmas técnicas levam sempre aos mesmos resultados, convencidos que o sucesso que obtiveram de uma certa maneira será replicado ad eternum, podem fazer perigar, e vou mais longe, podem mesmo conseguir parar toda uma instituição, acaso ocupem uma posição de superior hierarquia. Fiéis a uma natureza reprodutiva de símio, vão caminhando sempre na mesma linha, usando sempre os mesmos mecanismos, chegando sempre aos mesmo lugares, aos lugares ocupados pelos 'não-humanos', os imutáveis, quando todos sabemos que o que devemos ser é pós-humanos, humanos extraordinários, humanos superlativos, humanos diferentes, mudados.

Não posso dizer que é com prazer que acompanho esta gente, tornada amarga, avessa à mudança.
Os grandes homens, os grandes senhores, os incontestados, os constantes, tantas vezes incapazes de caminhar nos seus pés de barro, por caminhos trôpegos de mudanças.

Eu percebo que a maioria dos pensadores corrobore da ideia de que a humanidade nasceu com as características que hoje detém, e que essas características foram sempre iguais. Necessidades humanas (conforto, amor, paz, alegria...) não mudam, dizem eles, e que não é pela mudança que somos mais ou menos humanos. Eu digo que as necessidades mudam a cada instante, decretam-se, ainda que as necessidades principais possam manter-se inalterados. Mas lá porque as bases se mantêm não quer dizer que tudo o resto não mude.
As pessoas devem [não só] mudar naturalmente, como devem fazer um esforço de mudança, sob pena de se verem sozinhas na sua estaticidade.

O futuro só será suportável se desenvolvermos cada vez mais as características humanas [Sobrinho Simões], e ao contrário do que é a opinião geral, acho que as mudanças [nas pessoas, nas relações entre pessoas, nos países e nas relações entre países] são absolutamente visíveis e demonstram que há um aumento da expetativa de melhoramento das necessidades básicas (conforto, amor, paz, alegria), e que por isso nos vamos tornando cada vez mais humanos e cada vez mais humanitários.

Eu quero mudança.
Eu sou cada vez mais humana.
Eu gosto muito de estátuas mas é nos museus.

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Obrigatório ver: http://www.rtp.pt/play/p4286/e328635/2077-10-segundos-para-o-futuro